domingo, 28 de abril de 2013

A Arte e a Ética

Faz realmente muito tempo que sinto vontade de falar sobre a ética na cutelaria brasileira. Não tenho diploma acadêmico específico para tal, mas certamente minha formação cristã, militar, judoísta e familiar me habilitam tranquilamente para este mister. 

Muito embora tenha um grande amigo, com formação específica, que é professor de ética da Academia de Polícia Militar do Barro Branco em São Paulo há muitos anos, que poderia, aposto que com satisfação, me ajudar neste texto, entendi ser melhor não envolvê-lo na manifestação de meus pontos de vista.  

Um impeditivo sempre foi o veículo de comunicação adequado para isso, pois já presenciei discussões em fóruns na internet que inicialmente deveriam ser técnicas e sérias, se transformarem em baixarias da pior qualidade. 

Como o assunto é extremamente polêmico e pode, se mal direcionado, tornar-se uma tempestade colossal, o blog é a ferramenta perfeita para a expressão de meus pontos de vista, pelos quais sou totalmente responsável, pois se o nível dos comentários enviados descerem aos porões do inferno, eu simplesmente não os publico.

Todos os fatos aqui relatados não são obras de ficção científica, nem tampouco mera coincidência. Foram todos percebidos por mim ao longo desses 8 anos de carreira como cuteleiro profissional. Obviamente não referenciarei pessoas, pois não pretendo depreciar o nome nem a reputação de ninguém, apenas busco uma análise crítica, lúcida e construtiva de comportamentos que em dadas circunstâncias não foram legais sob o senso comum das pessoas. Minha luta não é contra os autores, mas sim contra os atos.

Não se trata de forma alguma de um desabafo. É somente a manifestação do que penso sobre o tema!

Essa abordagem não exclui minha responsabilidade de algum eventual comportamento anti-ético praticado no passado. Eu também erro com os outros! Não estou me colocando na condição de mais ético que ninguém, apenas buscando uma constância na correção de atitudes para com as outras pessoas, prática que por sinal, me auto-imponho diariamente.

Vamos lá:

Pensando na vida, na solidão do trabalho árduo na oficina,
 enquanto a barra de damasco esquenta.

Os Brazucas de modo geral (mas existem exceções... claro!):

Eu, assim como boa parte de meus amigos cuteleiros, nasci na década de 70, mais precisamente 1971, logo após a Seleção Canarinho ter conquistado sua terceira Copa do Mundo. Momentaneamente os problemas dos brasileiros haviam desaparecido, como a inflação, o desemprego e a falta de infra-estrutura. Nosso povo estava num êxtase entorpecido pela conquista do título mundial.  

Nesta época, um famoso jogador de futebol fez uma campanha de marketing para uma marca de cigarros, onde após algumas cenas e poses altivas, anunciava: Fume Vila Rica.... pra você levar vantagem em tudo!"

Essa prática, a de levar vantagem em tudo, enraizada em nossa cultura já há séculos antes da malfadada propaganda, acabou levando o nome de Lei de Gerson, que sozinho... coitado, teve que carregar nos ombros essa maldita prática tupiniquim de sempre levar a melhor, ainda que para isso tenha que prejudicar os outros.

Nunca vi qualquer entrevista sobre isso, mas aposto que o habilidoso jogador hoje, pagaria 10 vezes o valor recebido para não ter seu bom nome associado a essa prática condenável.

O fato é que, o Gerson não tem realmente nada haver com o peixe. Sair inescrupulosamente por cima é senso comum brasileiro. Vemos isso no dia-a-dia, na tv, na internet e até ensinamos isso às nossas próximas gerações... não é?

E o tal Jeitinho Brasileiro? Como lhe soa isso? Arrumar uma solução, não interessa como? Fazer de qualquer jeito? Bem ou mal feito, mas damos um jeito em tudo. Não é assim? Uma manobra revestida de malandragem... jogo de cintura! O pior é que ainda falamos com orgulho desse jeito espertalhão e repudiável de nosso povo.

Alguém aí já ouviu falar no Jeitinho Japonês de resolver as coisas? Não? Simples: trabalho, seriedade e comprometimento. Os japoneses fazem absolutamente tudo com esmero. Criaram até um ritual pra poder tomar um chazinho de fim de tarde!!! Imaginem se ao invés de Iroshima e Nagazaki as bomas atômicas tivessem sido detonadas no Rio e em São Paulo? Suspeito que correríamos o risco de estarmos nos alimentando de ratos de esgoto e morando debaixo de escombros mesmo depois de quase 70 anos. O Japão.... ah, já está reconstruído, bem bonito, bem feito e moderno, mesmo depois do horrendo tsunami que o devastou dias atrás!

E a situação do Idoso? Em nossa cultura o velho, injusta e criminosamente é tratado como estorvo, sem valor, peso morto! Será que nos esquecemos que vamos todos ficar velhos um dia? Onde foi parar o respeito aos mais velhos? E a sabedoria e experiência dessas pessoas, não conta? No Oriente em geral o velho é uma entidade destacada dentro da família, respeitada e reverenciada como bem merece. Onde foi parar nosso respeito pelos nossos semelhantes?

A questão é essa, nos vangloriamos de uma cultura sem cultura, onde o feio é tratado como bonito e fazer o certo é coisa de careta e otário! 

Terrível!

Equalizando a temperatura.

Os Fóruns da Internet:

A internet, como quase tudo criado pelo homem, pode ser usada tanto para o bem, quanto para o mau. Não entendo nada de informática, mas é fácil supor que a finalidade principal da internet é compartilhar conhecimento, expandir e acelerar a velocidade da comunicação entre as pessoas. 

Os hoje populares fóruns de discussão de cutelaria são uma forma brilhante de compartilhamento de conhecimento técnico, bem como da cutelaria como arte em geral. Foram criados para promover discussões de alto nível técnico-científico nas mais variadas ciências que abrangem nossa arte: física, química, metalurgia, ergonomia, ergometria, estética, etc. Estes veículos de comunicação também tem a grande capacidade de popularizar uma arte que até então era totalmente desconhecida do público brasileiro.

Ocorre que onde deveria imperar o conhecimento técnico e as práticas da boa educação, como cordialidade, respeito e discrição, por vezes ocorre o domínio da maledicência e da pessoalidade em questões que deveriam ser absolutamente impessoais.

Não me refiro aqui a nenhum fórum específico, mesmo porque já constatei comportamentos inadequados em todos os que já frequentei, mas não podemos nos esquecer que os assuntos tratados nestes meios devem ser técnicos e isentos. Um cuteleiro pode não gostar da pessoa de outro, mas tem o dever de respeitar o trabalho deste e seu meio de sustento.

Fóruns não são locais para falar mau dos outros nem tampouco de seus trabalhos. A regra é simples: Se você não concorda com alguma questão técnica, discorde manifestando-se com respeito e cuidado. Se você não tem controle emocional e é incapaz de se relacionar com pessoas que tem pontos de vista diferentes dos seus, ótimo, não se relacione, não participe dos fóruns. 

Por causa destas práticas abomináveis, deixei de postar em fóruns já há um bom tempo, com medo de que um dia alguém indevidamente virasse seu canhão desrespeitoso para minha cara. Nossa querida cuteleira Silvana Mouzinho já me deu vários puxões de orelha por essa minha ausência. É que eu odeio briga, especialmente com gente de baixo-nível. Tá aí a minha explicação!

Um pensamento cujo autor desconheço, mas que recebi por e-mail há alguns anos e que gravei por achar sensacional:

"Você nunca deve entrar numa briga com um idiota. Se você entrar, ele o fará descer até o  nível dele e o vencerá naquilo que ele faz de melhor: ser idiota!"

Sem dúvida a internet tem sido a maior e melhor ferramenta para crescimento técnico dos artistas brasileiros e deve ser usada com sabedoria e ética!

Quase lá!

O aprendiz espertalhão:

É frequente em minha caixa de e-mail e também na de meus amigos cuteleiros de alto nível técnico, mensagens de cuteleiros iniciantes que sem qualquer prévia nem minimamente informal apresentação, como exigiria a boa educação, fazem perguntas sobre questões técnicas, por vezes bastante complexas, as quais levam às vezes horas de raciocínio e escrita de nossa parte.

Já escrevi por uma hora e meia para explicar para um desconhecido, uma técnica que levei vários anos para desenvolver. Depois disso passei por mais de um mês dando suporte técnico quase que diário para corrigir os erros de prática deste cidadão. Depois que tudo deu certo e ele conseguiu executar a técnica, o camarada desapareceu na mesma velocidade com que surgiu, parecendo aqueles ninjas que somem em meio à fumaça, sem sequer um "valeu Berardo pela ajuda!", quanto mais um formal e merecido "muito obrigado!". 

Mas a coisa não pára por aí... calma, vai piorar! Tempos depois, num evento de cutelaria em São Paulo, vim a saber que o camarada esteve presente expondo por 3 dias e nem sequer se deu ao luxo de sair de sua mesa por alguns instantes para vir até a minha para me conhecer pessoalmente nem para manifestar-me sua gratidão pela ajuda!

Impressionante! O duro é que em conversa posterior com meus Irmãos cuteleiros pude perceber que situações semelhantes aconteceram diversas vezes com eles e que desde então deixaram de ajudar desconhecidos pela internet.

É ponto pacífico que a única forma de elevar o nível técnico e popularizar a cutelaria custom no Brasil é através da troca de informações. Isso não se discute! Mas infelizmente hoje, não se pode investir horas e horas de um tempo precioso ensinando pessoas que não fazem jus à receber um conhecimento que por vezes levou-se vários anos para adquirir.

Tenho ensinado o que sei, gratuitamente à dois amigos iniciantes. Mas eles tem feito por merecer!

 Opa... agora está no ponto!

A lebre e a tartaruga:

Uma coisa é certa: nenhum cuteleiro que trabalha hand made vai ficar rico! Quem está à procura disso, errou de carreira. Muito embora bons cuteleiros consigam alcançar um nível de rendimentos financeiros que lhes proporcionam uma vida digna, muito acima da média salarial do povo brasileiro, ficar rico é utópico!

Bons profissionais ganharão dinheiro, decorrente de décadas de dedicação, disciplina e trabalho sério. O aprendizado é árduo e plagiando Rodrigo Sfreddo, cutelaria á 5% inspiração e 95% transpiração. Ou seja, é trabalhando duro que se alcança bom nível, não existem atalhos. 

Se a motivação inicial de qualquer cuteleiro for ganhar dinheiro, sem dúvida vai se estrumbicar. Sem paixão pela arte do ferro e do fogo não se chega a lugar algum, será um cuteleiro medíocre e inexpressivo.


E uma coisa que se aprende rápido no Brasil é que facas de damasco custam mais caro. São mais caras por uma série de fatores plenamente justificáveis, sendo os principais porque são mais difíceis de produzir e mais demoradas.

Quando alguns iniciantes entram nesse meio e vêem uma faca de aço damasco sendo vendida por vários milhares de reais, supõem imediatamente que descobriram a galinha dos ovos de ouro. 

Daí o atalho mais comumente visto por aí. O camarada ainda nem conseguiu fazer uma boa faca de aço carbono, livre de graves erros técnicos e já está juntando aço pra caldear damasco.

Aí, ao invés de fazer uma grande porcaria de aço carbono, faz uma maior ainda de aço damasco. Já vi facas grotescas de aço damasco, com erros infantis ridículos, numa clara tentativa de cortar o caminho natural, difícil e demorado do aprendizado técnico consistente, para se tentar ludibriar o cliente vendendo uma porcaria cara e mal feita.

Depois o apressado não sabe porque suas facas não vendem nem ganham prêmios.

Assim como na fábula da corrida entre a lebre e da tartaruga, ser constante, paciencioso e humilde o fará cruzar a linha de chegada e se tornar um cuteleiro consagrado, ainda que o caminho seja longo e difícil.

Temperatura certa, pressão certa: Aço damasco bem feito!

De abóbora à carruagem:

Outra situação frequente na corrida desenfreada por dinheiro é o aprendiz que, como passe de mágica se torna mestre. Soube numa conversa com um cuteleiro renomado e muito amigo que enquanto ele estava ministrando ensinamentos técnicos à um cuteleiro em fase bem inicial de aprendizado, este, o aprendiz, estava simultaneamente ministrando um curso para terceiras pessoas.

Meu Deus, ou é um gênio prodígio da aprendizagem e da habilidade inata ou o maior picareta da docência metalúrgica mundial. Como será que ele conseguia enganar seus desafortunados alunos ensinando aquilo que não dominava.

Não acho que seja necessário ser Mastersmith para poder ensinar os outros, longe disso, mas sem dúvida é imprescindível dominar aquilo que se ensina. 

 A pressão e o calor que produz o bom aço,
também produz os bons cuteleiros.

The Caroço Customer:

Minha esposa trabalha como vendedora há mais de 20 anos e me ensinou uma gíria do comércio de minha região. O cliente que olhava todo o estoque da loja, desorganizava tudo, até a vitrine e tomava o tempo das vendedoras por horas sem, ao final, comprar uma única peça! O cliente caroço!!!

Em nosso caso é o camarada que faz mil perguntas técnicas difíceis, te impede de atender à outros clientes num evento, lhe toma horas incontáveis de trabalho, depois negocia o valor da faca regateando até o ponto onde você começa a fazer planos de esfaqueá-lo com a própria faca pretendida, e depois de irritá-lo e esvair com todas as suas energias, vai embora sem comprar nada.

Deixem-me explicar por favor! Adoro quando um cliente me pergunta como se faz isso ou aquilo. Gosto e tenho muita paciência e didática para ensinar aos que se interessam. Estou falando de um ou outro (felizmente são bem poucos) que você sabe, desde sempre (pois a história se repete há vários anos), que não vão comprar nenhuma peça, vão torrar sua paciência, depois vão chorar o preço da faca até depreciar seu trabalho e não vão fechar negócio nenhum contigo. Já até vi um cuteleiro amigo, que é um Lord, perder totalmente a paciência com um desses.

Me considero calmo, paciencioso e bom vendedor, mas confesso, quando vejo uns poucos caras, mesmo de longe, num evento qualquer de cutelaria, minha pressão até sobe. E olha que tenho uma saúde de ferro!

Guinness Book da chatice e da falta de respeito pra eles!

Transformando aço incandescente em Obras de Arte.

O professor de Deus:

Outro fenômeno que infelizmente acomete alguns cuteleiros aqui e mundo afora é a falta de humildade. 

Já presenciei atos de arrogância nauseantes por parte de cuteleiros que, mesmo tendo alcançado nível técnico satisfatório, internalizaram a ideia de que  são superiores à tudo e à todos.

Esquecem-se do dever de gratidão aos que os ensinaram, falando mau das carreiras e das peças de seus professores. Seu Mestre sempre será seu Mestre, ainda que um dia você alcance uma posição, em tese, acima da dele!!! 

Transparecem tanta superioridade e dizem saber de tantas coisas que, como dizia um ex-Comandante parecem ser os professores de Deus.

A questão é (e já falei sobre isso no Facebook) que para ser bom, excelente ou até mesmo excepcional, não é necessário que os demais sejam medíocres. O referencial comparativo de sua evolução profissional não deve ser os outros, mas sim você mesmo. Fazer a próxima faca melhor do que conseguiu fazer a última. Se esforçar para não reeditar os erros que foram cometidos no passado. Buscar melhorar sempre!

Posso ser um bom profissional tendo colegas de profissão tão bons ou até mesmo melhores que eu! Não preciso ser um Pelé pra poder fazer um gol. Aliás, nunca vi o Rei do Futebol alimentando a disputa ridícula que a mídia fomenta entre ele e Maradona. Em detrimento disso, nada nos impede de tentarmos ser o melhor que pudermos ser! É legítimo e desejável!

Como aprendi com um professor de Judô: não é todo mundo que nasce pra ser o Campeão Mundial, ele é apenas um entre milhares, e os demais não tem valor? A questão é: Campeão ou não a humildade e o respeito a todos é imprescindível.

Presenciei infelizmente certa vez um colega de cutelaria depreciando e ridicularizando o trabalho de um cuteleiro consagradíssimo, cujos ensinamentos transmitidos no passado possibilitaram que este, o crítico arrogante, metido e implacável, tivesse sustento em sua mesa nos dias atuais!

Lamentável!!! 


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