terça-feira, 30 de junho de 2015

Irukandji

Olá meus Amigos. 

Recebi recentemente um pedido de um grande cliente, Orlando Soares, para fazer uma pequena faca de autodefesa que confesso, inicialmente achei meio esdruxula.

No Estado do Rio de Janeiro, alguns Deputados estão tentando aprovar uma Lei que proibirá o cidadão de bem de portar qualquer faca com mais de 100 milímetros de lâmina.

Como se não bastasse a absurda inversão de valores de um país que tirou o direito do cidadão de bem de portar uma arma de fogo, tomando-lhe o direito a legítima defesa, agora esses Deturpados, digo Deputados, querem deixar a coisa ainda mais tranquila para a bandidagem, proibindo um homem de bem de até mesmo portar uma faca para se defender.

Até onde chegaremos???

Desta forma nasceu o projeto da Irukandji, nominado desta forma por ser inspirado na minúscula água viva, altamente letal, que povoa os mares da Austrália.

Água viva Irukandji.

Diminuta e mortal.

Respeitando o desrespeitoso Projeto de Lei, a lâmina deveria ter menos de 100 milímetros e terminou com exatos 96,5 milímetros.


O design escolhido para a lâmina foi o swedge point, por proporcionar uma ponta bastante agressiva e por poder comportar um falso-fio, que otimiza muito a perfuração.


Sobre o dorso foi colocado um pequeno "zingrinado" para melhorar a aderência do polegar e tornar a empunhadura mais segura.


Para a guarda, optou-se pela simples, e bem curta, de modo a tão somente proteger o indicador do contato com o fio e não comprometer em nada a portabilidade.


O cabo foi confeccionado em California Buckeye estabilizada, bastante adensada em desenhos e de belo colorido.


O pomo é o que continha a questão do "esdruxulo"!

Orlando descreveu-me um pomo abaulado, com uma saliência usinada em forma de cunha. Receoso sobre ter ou não compreendido corretamente o descrito, enviei-lhe por email a foto de um capacete medieval que se assemelhava ao que eu consegui imaginar.


A resposta foi positiva, mas obviamente seria uma peça mais baixa, menos saliente em suas proporções.

Fui pra oficina chamando o Orlando de doido! Terminada a faca eu o chamava de inteligente.


Nas nossas conversas por email, ele me explicava que nem sempre, sob o ponto de vista legal, se justificaria o uso da lâmina como legítima defesa. Que muitas vezes, produzir uma lesão menos potencialmente mortal, seria, à luz da lei, mais adequado.


Obviamente que como Policial Militar entendia bem o que ele dizia. Muitas vezes temos que optar por um tiro na perna para tão somente cessar a agressão e não matar o agressor e sermos consequentemente condenados.


Mas achei que o projeto do pomo não funcionaria!

Ledo engano. Tive que dar meu braço à torcer e confessar ao Orlando que eu inicialmente havia suspeitado da sua sanidade.


Desculpas manifestas e faca pronta, admito que, além de ser uma peça esteticamente bela, funciona inquestionavelmente bem para rachar com facilidade, a testa de um ladrão desavisado.


O pomo ficou com o aspecto de um pequeno machado e acelerado por um braço veloz, é certamente capaz de produzir grande estrago.


Na cintura tornou-se uma faca quase imperceptível ao usuário, por ser extremamente leve e de pequenas dimensões, facilitando o porte diuturno.

Obrigado pela aula Orlando!

Um grande abraço à todos!

Irukandji


"Pois tu, Senhor, abençoarás ao justo; 
circundá-lo-ás da tua benevolência 
como de um escudo." 
                                                       Salmos 5:12

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terça-feira, 16 de junho de 2015

O Alfa


O começo...

Em setembro de 2008 estava entre amigos, expondo na Feira de Cutelaria de Nova Petrópolis/RS, onde também se encontrava a simpática e querida Arlete Ballestra, brasileira residente na Itália e casada com o Mestre Cuteleiro Italiano Santino Ballestra.

Na ocasião Arlete expunha ao público brasileiro as peças confeccionadas pelo marido.

Sempre muito simpática e agradável, tratou logo de se enturmar e fazer novos amigos. 

Impressionada com o nível técnico de alguns cuteleiros brasileiros, comentou com o marido Santino ao telefone sobre as belas facas custom que estavam sendo produzidas no Brasil.

Santino então disse à esposa para que alguns dos melhores cuteleiros brasileiros, a saber, Rodrigo Sfreddo, Luciano Dornelles, Ricardo Vilar e Eduardo Berardo, enviassem algumas fotos de seus melhores trabalhos, por email, à Presidência da Associação Italiana de Cutelaria para que, previamente avaliados os respectivos níveis técnicos, pudessem selecionar quais destes poderiam ser convidados à submeterem suas facas ao teste de Mestre Cuteleiro.

Todos enviaram suas fotos para a Corporazione Italiana Coltellinai. Após previamente avaliados, foi feito o convite para que se submetessem ao teste de certificação no ano de 2009 e, caso aprovados, expusessem suas peças na Feira de Cutelaria de Milão, um dos eventos mais importantes do mundo, onde só expõem Mestres Cuteleiros.


A viagem

Mais de um ano depois, embarcavam rumo à Milão, Rodrigo Sfreddo, Glenda Hermann, Ricardo e Renata Vilar, Alexandre Andrade e Eduardo Berardo, numa viagem maravilhosa que durou 10 dias.

Todos almoçando juntos. Chegada em Milão.

O Duomo - Milão. 

Galeria Vitorio Emanuelle II - Milão.

Comemorando a certificação de Mestres Cuteleiros.

Berardo, Sfreddo e Vilar.

Feira de Cutelaria de Milão, 
uma das mais procuradas por cuteleiros do mundo inteiro.

Santino, Arlete e o filho do casal.
Gente simpática e muito hospitaleira!

Evento lotado.

Em Veneza, dando uma banda de barco.
Da esquerda para a direita:
Alexandre "Morcego" Andrade, Glenda e Rodrigo Sfreddo,
Ricardo Vilar fazendo micagens e sua esposa Renata.

Castelo transformado em museu - Veneza.

Teto do museu revestido de ouro.

Peças em exposição.

Murano, onde se fabricam os míticos cristais.

Porto de Veneza.

Noite de lua cheia - Veneza.

Sobre uma das pontes - Veneza.

Vista da torre da Praça de São Marcos - Veneza.

Vista da torre da Praça de São Marcos - Veneza.

Fontana di Trevi - Roma.

Panteon - Roma.

Vista externa do Coliseu - Roma.

Vista interna do Coliseu - Roma.

Fórum Romano.

Castelo de Santo Ângelo - Roma.


Vaticano.


Monumento à Vítorio Emanuellle II - Roma.


A faca

Para o teste, exigia-se a apresentação de 5 facas de aço damasco. Por cautela confeccionei 7 peças, em 7 padrões de aço damasco diferentes.

Dentre elas estava uma belíssima faca persa, em estilo tradicional, mas com construção integral full tang.

O cabo tradicional, com a linda "bola persa" na região do pomo, em ébano esculpido à lima, foi sem dúvida um dos grandes desafios da minha carreira.

O resultado, graças à Deus, foi a aprovação no teste de certificação de Mestre Cuteleiro, e esta belíssima peça em meu portfólio.

Espero que vocês a apreciem! Forte abraço e que Deus abençoe à todos!


Lindíssimas curvas.

Conjunto.

A lâmina recurva.

Embainhada.

A linda bola persa, dividida pelo chassi em aço damasco.

Muita segurança e conforto na empunhadura.

O Alfa.

As facas do teste!


"Eu sou o Alfa e o Ômega, 
o princípio e o fim, 
o primeiro e o derradeiro." 
                            Apocalipse 22:13


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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Lírio dos Vales

Continuando a registrar e divulgar meus trabalhos executados antes da criação deste blog, quero apresentar-lhes uma das minhas peças mais belas, que confeccionei em abril de 2011.

"Sapeando" informalmente na internet, ao que me recordo no Google Imagens, procurando por espadas de caça, me deparei com uma gravura, que trazia o desenho de uma bela espada, design que lembrava as facas Bowie, onde constava escrito "Odingaard 15h C German Messer", traduzindo: "Faca Alemã de Odingaard do 15° Século".


Tratava-se de um fórum especializado em cutelaria, e gostando do projeto e estando inspirado a executá-lo, tratei de ir pra oficina e por a mão na massa... digo, no aço!

Por si só uma peça com 20 polegadas de lâmina, já é um pesadelo técnico. A cada polegada acrescida à qualquer que seja o projeto, multiplicam-se os possíveis problemas em progressão geométrica. Isso é natural, pois potencializam-se a dificuldade de usinagem, simetria, têmpera, decorrentes empenamentos, etc.

Além disso, eu sabia que por se tratar de uma "espada de uma mão", ou seja, que é empunhada e manuseada por apenas uma das mãos do usuário, eu deveria dar especial atenção ao peso final da peça, para que fosse viável e prática, não somente esteticamente bonita.

A guarda com secção transversal quadrada, aparentemente seria de fácil usinagem. Ledo engano! Fazer com que ficasse perfeitamente simétrica me exigiu muita paciência e habilidade.

Certamente o maior problema técnico era a usinagem do cabo, com montagem de frame, espaçador e pomo, em secção transversal oitavada. Duas questões:

1. Usinar o oitavado em curva é sempre complicado, pois a lixa tende a "picotar" a parte côncava da curva. 

2. A diferença de dureza entre o aço damasco e as talas de marfim de elefante. A lixadeira, naturalmente, tende a gastar mais o material mais macio, como o marfim, e deixá-los (o aço e o marfim) com as superfícies nas mesmas dimensões e acabamento, exige muita cautela.

Com tudo usinado, acabado e montado, restava somente o tratamento do damasco. Aí veio um grande susto...

Infantilmente, protegi o marfim de elefante com esmalte de unha... vermelho! Erro absurdo! Obviamente depois de revelado o damasco no percloreto férrico e do posterior banho protetor do fosfato de manganês, restava remover o esmalte e dar o devito polimento ao conjunto.

Removido o esmalte vermelho, surpresa: meu cabo de marfim de elefante lindo e maravilhoso, parecia um copo de leite com quick de morango!


Eu só não enfartei porque meu coração estava bem! Que bonitinha, minha espada com marfinzinho cor-de-rosa.

Cheguei a pensar que só conseguiria vendê-la numa promoção de alguma loja da Hello Kit.

GRANDE PROMOÇÃO DE 
ESPADAS COM MARFIM COR-DE-ROSA!!!

Acho que nunca me senti tão burro na vida!!! Imperdoável ter cometido um erro tão óbvio. Passar esmalte vermelho sobre uma superfície porosa branca!

Depois de uma meditação zen, respirei fundo e comecei as tentativas de não perder quase um mês de trabalho, nem meu único par de marfim de elefante!

Depois de umas duas horas de lixa grão 1200, lixando cirúrgica e delicadamente como quem desarma uma bomba, consegui masculinizar novamente meu marfim sem prejuízos e salvar o pouco que restara de meu Quociente de Inteligência (QI).

Minha auto-imagem naquele dia!

Enfim, foi mais um dos aprendizados decorrentes da caminhada nesta bela arte da cutelaria, onde a maioria de nossas habilidades são desenvolvidas mediante tentativa e erro, mediante persistência e muito esforço.

Hoje, restou a oportunidade de rir muito da situação, e as imagens dessa bela peça que foi abrilhantar uma grande coleção nos Estados Unidos!

Espero que vocês apreciem!


Lírio dos Vales


Uma belíssima peça, destaque em qualquer coleção!

A linda guarda com secção transversal quadrada, 
com as extremidades em forma de diamante.

O contraste e a definição do damasco ladder.

O finíssimo marfim de elefante.

A lâmina em design de Bowie, 
sempre esteticamente sedutora.

Bainha revestida com couro de canela de avestruz.

O cabo oitavado e a guarda em diamante.
Pura técnica!

O Lírio dos Vales!


"Mas o fruto do Espírito é: 
amor, alegria, paz, longanimidade, 
benignidade, bondade e fidelidade."
                                                                                                                      Gálatas 5:22

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